Saúde

App simula metabolismo humano
Bióloga desenvolve ferramenta que mostra controle glicêmico em diferentes situações
Por Unicamp - 08/01/2026


Aplicativo permite que estudante veja como reagem hormônios e órgãos ligados ao processo de regulação da glicose


Formar um profissional de saúde vai além de memorizar sistemas do organismo e nomes de hormônios. É preciso compreender processos complexos, integrados e invisíveis, como o controle da glicemia, mecanismo alterado em doenças como obesidade e diabetes. A então aluna de graduação em Biologia Ana Clara de Gouvêa Fernandes enxergou ali uma oportunidade de desenvolver uma ferramenta para o aprendizado do tema ao lado do professor e pesquisador Everardo Magalhães Carneiro, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (OCRC).

“As imagens dos livros estavam paradas. Eu imaginava que seria tão sensacional se elas se mexessem”, lembra Fernandes. Da frustração nasceu a pergunta científica que guiou sua tese na Unicamp: e se fosse possível simular o metabolismo humano em um aplicativo?


Carneiro, cujo trabalho envolve o estudo dos mecanismos celulares e moleculares da produção, secreção e ação da insulina e glucagon em modelos animais, ministrava a disciplina que tratava do tema e viu na aluna um potencial e grande afinidade pela docência. “Notei que ela tinha uma aptidão grande para o ensino, então vi uma potencialidade para desenvolver estratégia com foco no aprendizado de estudantes da área da saúde”, explica o orientador.

A pesquisa resultou no desenvolvimento e avaliação de um aplicativo que simula o controle glicêmico em diferentes situações, como metabolismo saudável, obesidade e diabetes tipo 1 e 2. Ao usar o app, o estudante ajusta variáveis e vê imediatamente o comportamento dos hormônios e órgãos envolvidos no processo de regulação da glicose, o que nos livros aparece como diagramas estáticos.

O objetivo de Fernandes não era criar um aplicativo por si só, conta, mas resolver um problema educacional. De acordo com orientanda e orientador, muitos estudantes da área da saúde sabem o que é a insulina, mas não compreendem o que ela faz em conjunto com o fígado e outros órgãos, e como isso muda quando há dificuldade de ação da insulina, como na obesidade e diabetes tipo 2, ou na ausência total desse hormônio, como no diabetes tipo 1.

Na formação nas áreas de saúde, compreender essas relações pode ser decisivo para interpretar exames e orientar pacientes. “A educação em saúde é prevenção. Se o futuro profissional entende esses mecanismos, ele consegue explicar melhor para o paciente e, possivelmente, evitar o agravamento da doença”, resume Fernandes.

Testes

Para avaliar se o aplicativo realmente facilitava o aprendizado foram realizadas aulas e testes com os estudantes, voltadas para dois públicos distintos: do ensino superior e do ensino médio.

No ensino superior, a pesquisa explorou diferentes possibilidades de utilização do recurso em dois momentos distintos. Inicialmente, os estudantes participaram de uma aula expositiva tradicional com slides, ministrada pelo professor Carneiro, seguida de uma aula prática com o aplicativo conduzida por Fernandes. Essa primeira etapa constituiu uma experiência de Aprendizagem Baseada em Investigação, abordagem na qual o aluno formula hipóteses à medida que manipula o aplicativo. Posteriormente, a aula tradicional foi substituída por uma aula interativa em que os estudantes utilizavam o aplicativo de forma contínua, intercalada por breves exposições aprofundadas conduzidas por Fernandes, caracterizando uma Aula Mediada por Tecnologia. O desempenho dos alunos foi avaliado por meio de pré-testes e pós-testes, questionários de opinião e escalas internacionais de usabilidade.

Em todos os cursos testados, houve melhora significativa no desempenho após o uso do app. A ferramenta também obteve nota média de 75,11 na System Usability Scale, indicador internacional, considerado de alta aceitação. Os estudantes relataram sensação de autonomia e maior clareza conceitual. “Quando a gente aproxima a tecnologia da sala de aula, as coisas começam a fazer sentido”, afirma Fernandes.

A segunda etapa testou o aplicativo com estudantes do ensino médio. Nesse nível, o aplicativo funcionou bem, mas de forma diferente. Enquanto estudantes universitários conseguiam navegar sozinhos e construir as hipóteses, no ensino médio a mediação do professor era indispensável. “Eles ainda não têm tanta autonomia de estudo quanto um aluno de graduação”, explica.

A bióloga Ana Clara de Gouvêa Fernandes, autora da tese: aplicativo pode promover aprendizado ativo e significativo

Segundo a autora, a tese dialoga abertamente com os princípios de Paulo Freire, autor escolhido na epígrafe do documento: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua própria produção”. Para Fernandes, o aplicativo é justamente a materialização dessa ideia. “Eu não quero que o aplicativo dê a resposta. Eu quero que ele provoque o aluno a pensar.”

A pesquisa conclui que o aplicativo não substitui a aula tradicional com a presença do professor, mas pode complementá-la ao promover aprendizado ativo e significativo. “Para um país que enfrenta alta prevalência de diabetes — o Brasil ocupa a sexta posição mundial em número de adultos com a doença — a integração entre educação e saúde pode ser decisiva”, reflete Fernandes.

Segundo Carneiro, a importância da pesquisa está em tornar menos abstratos os conceitos envolvidos no controle glicêmico. “Favorecer aos estudantes das profissões da saúde e profissionais afins com uma ferramenta de aprendizado sobre os mecanismos celulares e moleculares envolvidos com o controle glicêmico torna os conceitos envolvidos menos abstratos”, afirma. Ele destaca ainda que o aplicativo já é usado nas aulas práticas: “Nós usamos este dispositivo em nossas aulas práticas e está bem claro que os alunos gostam e destacam que melhora a visualização dos conceitos teóricos abordados nas aulas”.

O orientador também vê no aplicativo uma resposta a questões estruturais do ensino de fisiologia no Brasil. Segundo ele, a ferramenta pode beneficiar especialmente instituições que não possuem estruturas mais eficientes para aulas práticas de fisiologia. Além disso, o uso do aplicativo interativo pode mitigar a questão do uso de animais em aulas práticas, uma vez que o ensino de fisiologia para alunos da área da saúde pressupõe, em sua maioria, o uso de animais de laboratório para visualizar as funções dinâmicas do organismo.

 

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